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Acessibilidade na arquitetura

Conversamos com Luiz Alexandre Souza Ventura, do Blog Vencer Limites, sobre a importância de uma arquitetura acessível

 

A diversidade e a inclusão têm se tornado temas cada vez mais recorrentes. Por isso, refletir sobre a acessibilidade na arquitetura e no urbanismo não é apenas uma exigência das legislações, para aprovação de projetos, como uma demanda da própria sociedade.

“A arquitetura não será contemporânea se não for plenamente acessível”, afirma Luiz Alexandre Souza Ventura, jornalista do Blog Vencer Limites, do Estadão. Além de garantir a segurança e a integridade física de pessoas com necessidades especiais e mobilidade reduzida, espaços adaptados ou projetados de forma acessível permitem a todos usufruírem dos mesmos ambientes, ampliando as possibilidades de integração e convívio social. Ou seja, criar ambientes capazes de atender a todas as demandas possíveis, mas sem negligenciar questões estéticas e conceituais.

Projetos e políticas sociais para adequação de edifícios e também do espaço urbano para pessoas com deficiências ajudam a eliminar os obstáculos que existem para o acesso desse público aos mais variados locais – basicamente, ampliando suas possibilidades de ir e vir. A inclusão dessas pessoas torna os ambientes mais diversos, promovendo aceitação e conscientização sobre esses assuntos, além de reduzir preconceitos.

Criando acessibilidade

Uma das maiores questões, no caso de edificações já existentes, diz respeito à possibilidade de modificar ou atualizar uma arquitetura não acessível, inserindo itens que permitam acessibilidade. “Há casos nos quais isso é possível e outros com muitas barreiras, que podem impedir essa atualização. O ponto principal é a participação de profissionais especialistas no tema”, explica Luiz Alexandre.

De acordo com o jornalista, há diversos itens indispensáveis, em um projeto arquitetônico que se proponha a ser acessível. “A lista é bem grande. Está disponível na NBR 9050 da ABNT e também em diversos projetos específicos”, observa. As exigências da legislação contemplam não somente a pessoas com deficiências físicas e visuais, como aquelas com mobilidade reduzida (incluindo idosos, gestantes e pessoas obesas).

Um projeto ideal, no que diz respeito à acessibilidade, elimina barreiras e inclui rampas, plataformas, placas de sinalização, pisos específicos, sinais sonoros e outras soluções que garantam o livre acesso a pessoas com necessidades especiais. Os pontos básicos a serem observados são sinalizadores, objetos e tecnologias que ajudem a informar e localizar as pessoas no ambiente, possibilitando sua locomoção sem obstáculos.

 

Exemplo de corredores sem barreiras, na Enabling Village, um espaço integrado em Singapura, projetado para facilitar o convívio de pessoas com deficiências

 

Conheça algumas das soluções possíveis, para um projeto arquitetônico acessível, com ambientes responsivos e adaptados a corpos diversos:

  • Mapa tátil: combina braile, alto relevo e informações em cores contrastadas, para auxiliar pessoas com deficiência visual.
  • Piso tátil: pisos e superfícies com revestimentos em textura e cor diferente do chão, para guiar deficientes visuais.
  • Placas sinalizadoras: informações com fontes grandes ou em braile, para pessoas com baixa capacidade visual.
  • Calçadas regulares, elevadores e rampas: possibilitam o livre deslocamento de cadeirantes, garantindo percursos acessíveis.
  • Barras e corrimãos: esses itens servem como apoio para a locomoção segura, principalmente de pessoas com deficiência visual e idosos.
  • Sanitários adaptados: os ambientes devem ter tamanho maior, para possibilitar a circulação de cadeiras de rodas, considerando ainda a altura de equipamentos como pias e lixeiras.
  • Dimensionamento da construção: espaços adequados à circulação de cadeirantes e acessos funcionais.

 

A escadaria da Robson Square, em Vancouver, no Canadá, inclui rampas, que possibilitam a locomoção de cadeirantes

 

Design universal

Um tema recorrente quando se fala sobre acessibilidade na arquitetura é o conceito do design universal, que surgiu nos anos 1960 e foi redefinido a partir da década de 1980. A visão do que é considerado um ser humano padrão tem sido reavaliada para incluir tipos mais diversos de pessoas, de acordo com o pensamento de que o espaço público deve se adaptar a todos, independentemente de suas condições físicas. Nesse contexto, desenvolver projetos universais, que incluam variadas tipologias humanas, é responsabilidade de arquitetos, engenheiros, designers, construtoras e, também, da administração pública.

 

O projeto do Apple Park Visitor’s Center tem portas ativadas por movimento, interiores desobstruídos e banheiros adaptados, para facilitar a locomoção de pessoas com necessidades especiais

 

A variedade de corpos e pessoas é pauta indispensável na arquitetura, já que diz respeito à experiência, vivência e fruição dos espaços construídos, sejam eles públicos ou privados. Por isso, os projetos precisam incluir desenhos e estruturas que solucionem problemas do cotidiano das pessoas, investindo em tecnologias que favoreçam a acessibilidade, sinalização e automatização dos ambientes. Na projeção dos espaços, deve ser considerada sobretudo a ergonomia (termo que se origina da junção das palavras gregas ergon/trabalho e nomos/lei ou regra, isto é, diz respeito a um conjunto de normas e procedimentos focados no bem-estar físico e mental das pessoas, durante a realização de suas tarefas). Ou seja, o espaço deve se adaptar aos usuários, da forma mais democrática possível.

Segundo uma estimativa da Organização das Nações Unidas (ONU), até 2050 quase um bilhão de pessoas com deficiências viverão em espaços urbanos, o que representará 15% do total de habitantes do mundo. No entanto, as cidades, com suas calçadas e ruas, metrôs, lojas e escritórios, muitas vezes são inacessíveis a essas pessoas. Para que uma arquitetura verdadeiramente inclusiva seja possível, é necessária, antes de mais nada, uma mudança de mentalidade. “A representatividade ainda é o maior desafio. Precisamos ter pessoas com deficiência na equipe de liderança dos projetos”, conclui Luiz Alexandre.

 

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