Há imóveis que ultrapassam sua função original e passam a ocupar um lugar no imaginário coletivo. Em Long Island, nos arredores de Nova York, o Oheka Castle é um deles. A propriedade centenária já apareceu em Cidadão Kane, serviu de cenário para a série Succession e ganhou projeção para uma nova geração no videoclipe de “Blank Space”, da cantora Taylor Swift.
Agora, mais de um século depois de sua construção, o château inicia outro capítulo de sua história: será levado a leilão em outubro de 2026.
Um château francês em Long Island
Construído entre 1914 e 1919 para o financista e patrono das artes Otto Hermann Kahn, o Oheka Castle nasceu durante um período de grande efervescência arquitetônica na chamada Gold Coast de Long Island.
Projetada pelo escritório Delano & Aldrich, a residência foi inspirada na arquitetura renascentista francesa e tornou-se a segunda maior residência privada já construída nos Estados Unidos.
São aproximadamente 10 mil m² de área construída, distribuídos em 127 ambientes. Escadarias monumentais, biblioteca, salão de festas com pé-direito superior a sete metros e 34 suítes ajudam a dimensionar a escala do projeto.
Nos jardins, a arquitetura encontra o paisagismo. O desenho original foi desenvolvido pelos Olmsted Brothers, filhos de Frederick Law Olmsted, um dos responsáveis pelo Central Park, em Nova York, com contribuições da paisagista Beatrix Farrand.
Espelhos d’água, fontes, caminhos geométricos e jardins formais criam a paisagem que, décadas mais tarde, ajudaria a transformar o Oheka Castle em um cenário reconhecido internacionalmente.
Da arquitetura para as telas
A relação do Oheka Castle com o cinema começou cedo. Imagens e referências da propriedade foram utilizadas para representar Xanadu, a monumental residência de Charles Foster Kane em Cidadão Kane, clássico de Orson Welles lançado em 1941.
Nas décadas seguintes, novos filmes e produções televisivas encontraram no château uma arquitetura capaz de assumir diferentes narrativas.
Entre elas está Succession, série conhecida por construir parte importante de sua identidade visual a partir de residências, hotéis e propriedades que ajudam a traduzir o universo de seus personagens.

O cenário de “Blank Space”, de Taylor Swift
Talvez uma das aparições mais reconhecidas pelo público contemporâneo esteja na música. Em 2014, o Oheka Castle apareceu no videoclipe de “Blank Space”, de Taylor Swift. Os jardins formais e diferentes ambientes da propriedade ajudaram a construir a estética aristocrática e deliberadamente exagerada do vídeo.

A escolha não parece casual. Com sua arquitetura de inspiração europeia, grandes proporções e paisagismo simétrico, o château funciona quase como um personagem dentro da narrativa.
Uma propriedade marcada por diferentes épocas
A trajetória do Oheka Castle, porém, vai muito além de Hollywood. Depois da morte de Otto Kahn, em 1934, a propriedade passou por diferentes usos e proprietários. Durante a Segunda Guerra Mundial, foi utilizada para treinamento de operadores de rádio e, posteriormente, tornou-se uma academia militar.

Após anos de abandono e deterioração, o imóvel foi adquirido pelo incorporador Gary Melius em 1984. Começava então um extenso processo de recuperação da propriedade.
A restauração, realizada ao longo de décadas, recebeu investimentos estimados em US$ 40 milhões e recuperou elementos arquitetônicos e paisagísticos do projeto original. Atualmente, o Oheka funciona como hotel e espaço para eventos e casamentos.
O próximo capítulo do Oheka Castle
Em 27 de outubro de 2026, o Oheka Castle será levado a leilão em Nova York. A operação inclui não apenas a propriedade histórica e sua atividade de hospitalidade e eventos, mas também uma área adjacente com projeto aprovado pela cidade de Huntington para o desenvolvimento de 95 residências em condomínio.

Mais do que a venda de uma propriedade de grandes proporções, o leilão coloca em discussão algo particularmente interessante no universo imobiliário: o valor de um imóvel cuja identidade não pode ser explicada apenas por localização, metragem ou arquitetura.
Quando a arquitetura passa a fazer parte da cultura
Alguns edifícios permanecem relevantes porque conseguem atravessar diferentes momentos sem perder sua identidade. No caso do Oheka Castle, arquitetura, paisagismo e história se sobrepõem. O que começou como uma residência monumental no início do século XX tornou-se hotel, espaço para celebrações, cenário cinematográfico e referência da cultura pop.
Seu próximo proprietário receberá, portanto, mais do que um château centenário. Receberá a responsabilidade de escrever um novo capítulo de uma construção que, há décadas, deixou de pertencer apenas ao universo imobiliário para ocupar também o território da memória e da cultura.