No podcast Prosa do Sertanejeiro, o cantor e compositor João Gomes trouxe uma reflexão que rapidamente ganhou repercussão: até que ponto a arquitetura contemporânea tem se afastado das referências culturais brasileiras?
Ao relatar a compra de um terreno em um condomínio fechado em Petrolina (PE), o artista comentou a dificuldade de viabilizar um projeto alinhado ao seu desejo, marcado por elementos como alpendres, volumes generosos e materiais naturais. Em contraste, encontrou uma predominância de propostas mais padronizadas, com linhas ortogonais e estética minimalista.
A discussão abre espaço para um tema mais amplo: a arquitetura contemporânea, especialmente em condomínios de alto padrão, muitas vezes segue uma linguagem globalizada, que prioriza formas puras, grandes planos de vidro e paletas neutras. Embora elegante e funcional, esse repertório pode, em alguns casos, reduzir a presença de elementos que traduzem identidade local.

Os traços da arquitetura brasileira no morar contemporâneo
A arquitetura brasileira carrega uma herança rica, construída a partir do clima, dos materiais e dos modos de viver. Elementos como alpendres, brises, cobogós, madeira, tijolos aparentes e fibras naturais não são apenas recursos estéticos, mas soluções que dialogam com conforto térmico, ventilação e convivência.
No design de interiores, essa linguagem se traduz em cores mais orgânicas, texturas naturais, peças artesanais e uma relação mais afetiva com os espaços. São escolhas que aproximam a casa de quem vive nela, não apenas visualmente, mas também na forma como se experimenta o cotidiano.

Entre tendências globais e identidade individual
A padronização, muitas vezes impulsionada por referências internacionais e pela repetição de fórmulas bem-sucedidas, pode facilitar processos e decisões. No entanto, quando aplicada de forma indiscriminada, tende a gerar ambientes que pouco refletem a individualidade dos moradores.
Nesse contexto, o papel do arquiteto se torna ainda mais relevante: interpretar desejos, referências e modos de vida, traduzindo tudo isso em um projeto coerente, sensível e personalizado. Mais do que seguir tendências, trata-se de construir narrativas espaciais únicas.

Arquitetura como expressão de afeto e pertencimento
Brasilidade, nesse sentido, não se limita a uma estética específica. Ela se manifesta em gestos, escolhas e memórias. Está no uso dos materiais, na integração com o entorno, na valorização do tempo e das relações.
A arquitetura que permanece é aquela que faz sentido para quem a habita: que acolhe, representa e evolui junto com seus moradores. Em São Paulo, especialmente em bairros consolidados e arborizados, essa busca por identidade tem se traduzido em projetos que equilibram linguagem contemporânea e referências brasileiras, criando espaços mais autênticos e duradouros.
No portfólio da Esquema Imóveis, é possível observar residências que exploram essa conexão com a brasilidade, seja na materialidade, na relação com o jardim ou na forma como os ambientes se organizam.

