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Fundação Ema Klabin: qual o legado deixado para a história da arquitetura de São Paulo?

Ema Gordon Klabin, nascida no Rio de Janeiro em 25 de janeiro de 1907, foi uma empresária, colecionadora e figura de destaque na elite cultural e econômica paulistana do século XX. Filha de imigrantes lituanos, era herdeira de Hessel Klabin, um dos fundadores da indústria de papel e celulose Klabin. Após o falecimento do pai, em 1946, Ema e sua irmã Eva herdaram o patrimônio da família, e Ema assumiu o posto de sucessora no conselho da empresa.

Em 1948, Ema iniciou os planos para construir sua nova residência em um terreno herdado no Jardim Europa, com o objetivo de abrigar sua crescente coleção de arte. Escolheu o projeto do engenheiro-arquiteto Alfredo Ernesto Becker, de estilo eclético, responsável por diversas outras residências no bairro. A casa não era apenas moradia: tornou-se o espaço onde Ema cultivou um acervo notável de obras e objetos raros, além de ser palco de encontros com importantes nomes da política, das artes e do empresariado.

 

A Fundação Ema Klabin

Sem filhos ou herdeiros, Ema dedicou-se a preservar sua memória por meio da arte e da cultura. Viveu na mansão do Jardim Europa por mais de 30 anos — dos anos 1960 até sua morte, em 1994 — e deixou estruturada uma instituição voltada à conservação de seu acervo e à abertura do imóvel como museu. A Fundação Ema Klabin foi inaugurada em 2007 e, desde então, recebe milhares de visitantes anualmente, com uma programação cultural intensa e multidisciplinar.

Mais do que um exemplo de arquitetura residencial paulistana, a casa preserva o espírito de sua anfitriã: generosa, refinada e profundamente conectada à arte. A história da residência inclui também os funcionários que viveram ali por décadas, amigos próximos, familiares e visitantes que contribuíram para o caráter acolhedor do espaço. Ao percorrer o museu, é possível sentir como um lar pode se transformar em legado, reunindo afetos e memórias em um único cenário. 

 

Vida social e arquitetura

Um dos principais acertos do projeto arquitetônico foi a inclusão de uma galeria central entre a entrada principal e o grande salão, uma solução similar às residências palacianas. Esse visual permitia que todos os convidados, ao entrarem na casa, fossem imediatamente impactados pela exposição das obras que compunham sua coleção.

A casa de Ema foi também um espaço de convívio e celebração. O salão principal abrigava as peças mais valiosas do acervo e era também onde a anfitriã recebia convidados para coquetéis, jogos de cartas e pequenas recepções antes dos jantares.

 

Cotidiano e intimidade

A música era uma das grandes paixões de Ema. No piano Érard de 1912, presente do pai às filhas, ela costumava tocar sozinha ao final do dia, interpretando obras do romantismo europeu — especialmente de compositores do século XX.

Nos momentos de recolhimento, Ema passava boa parte do tempo em sua biblioteca, entre livros, anotações e correspondências. Era ali que organizava sua rotina, lia e acompanhava os negócios.

No campo da vaidade, era exigente e cuidadosa. Em uma época em que se esperava muito das mulheres em termos de aparência e comportamento, Ema acompanhava as tendências da moda desde jovem — reflexo dos estudos na Alemanha nos anos 1920. Praticava esportes e mantinha uma rotina de cuidados estéticos com massagens, manicure e maquiagem, muitos deles realizados em casa.

Sua suíte era um espaço íntimo e reservado, raramente acessado por visitantes. Ali, começava seus dias com café da manhã, organizava sua agenda e definia o cardápio diário, com ajuda de seus funcionários. O ambiente, sempre decorado com flores de seu jardim, abrigava obras importantes e objetos de valor afetivo.

Afeto e vínculos

O quarto de hóspedes, o último a ser finalizado na casa, era frequentemente utilizado por sua irmã Eva Klabin, com quem mantinha forte laço. Outro nome marcante foi o do médico francês Richard Abbou, com quem Ema viveu um relacionamento à distância desde os anos 1970 até o fim da vida.

 

O jardim como obra

O jardim da residência é uma obra à parte: projetado por Roberto Burle Marx, o espaço valoriza a diversidade das espécies nativas brasileiras, em harmonia com o clima de São Paulo. O paisagismo é complementado por um lago de carpas e compõe a experiência estética e sensorial da casa. Entre suas paixões mais conhecidas estavam as orquídeas. Ema chegou a cultivar uma coleção de mais de 500 vasos, com exemplares trazidos de diferentes países.

 

A Fundação Ema Klabin permanece como um dos exemplos mais preciosos de como a arquitetura residencial pode se tornar um lugar de memória, arte e permanência. Um espaço onde o viver cotidiano se entrelaça com história, cultura e beleza.

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